terça-feira, 29 de julho de 2008

Pra onde ir?

Eu quero acreditar mais. Acreditar na vida e nas possibilidas que ela abre. Acreditar nas pessoas e nas palavras proferidas. Mas não consigo, não sou niilista. Longe disso, apenas não acredito sem mais nem porquê. Parei de acreditar e de tentar entender como o mundo funciona. Porque é a gente é assim?
Seria mais fácil acreditar e ter motivos para seguir em frente. Fazer planos? Do que me adianta se eu os construo na areia. São tantos os desvarios tolos que me consomem que não me resta tempo para sonhar. Quero mais mentiras sinceras, "a verdade sozinha nunca é capaz de explicar tudo que eu sinto"* então me quero de volta. Me devolva-me.

"Rompi com o mundo, queimei meus navios/ Me diz pra onde é que ainda posso ir" - Chico Buarque

* "Eu menti", de Nenhum de Nós


terça-feira, 22 de julho de 2008

A lembrança do que não foi

Ela se sentou na sacada sob a luz do sol enquanto observava distante aquele que entrara em sua vida sem pedir licença. Ela sorria envergonhada sem entender o que aquele instante significaria dali em diante. Talvez ela já entendesse, só não quisesse admitir que seria o fim.
Ele a olhou, calado, sem o sorriso que ela se acostumara a admirar. Depois de tanto tempo, ela havia reencontrado alguém para dedicar as horas mais serenas do dia. Sentia a doce necessidade de amar alguém. “Poucas vezes me senti tão confortável no mundo. E, no entanto, sofria por antecipação, o grande vazio que seria o resto da minha existência sem ele”.*
Ela sem cansou de apenas o admirar sem ao menos poder tocá-lo. Era sofrer um sofrimento desnecessário. Pegou a bolsa e simplesmente saiu, deixando para trás recordações de momentos que nunca existiram e talvez nem existirão.
“Quando estou com você me perdôo por todas as lutas que vida venceu por pontos e me esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, brigas e de amores para não pagar a conta”.*

* Cauby sobre seus dias com a inconstante Lavínia em “Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”, de Marçal Aquino.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Felicidade corrosiva

Eu tinha sete anos quando ganhei uma bicicleta roxa daquelas sem cestinha, um modelo da Caloi que não se fabrica mais - aliás ainda existe Caloi ou Monark? Ela tinha seis marchas, era mais leve e já não tinha rodinhas de apoio. Fiquei imensamente feliz com meu novo brinquedo, tão feliz que chegava a doer.
Era uma felicidade tão boa que eu morria de medo de que alguma coisa acontecesse. E aconteceu. Meu pé entrou no raio da bicicleta e ganhei uma torção. Não fosse época de festa junina, talvez eu nem me importasse com o pé machucado, mas eu iria dançar quadrilha. Não dancei, é claro.
Aí eu me pergunto: "quando você está feliz porque sente tanto medo da felicidade? Não é a felicidade que todos dizem querer?" E por sentir tanto medo, a gente acaba buscando pequenos acontecimentos para estragar a felicidade e preservar algo maior, que até hoje eu não sei o que é.
Vi, no Café Filosófico, um psicoterapeuta falando que quando alguém compra um carro novo, fica contente com a nova aquisição, mas sente medo de ter o carro roubado. Ninguém rouba, mas ele dá uma raladinha na lataria ao sair da garagem do prédio, aí parece que fica tudo bem. Afinal o pequeno desastre já aconteceu e corroeu parte da felicidade. Ele se sente menos culpado por estar feliz. Culpa de ser feliz? O psicoterapeuta disse que sim, as pessoas sentem-se culpadas por serem felizes e procuram um meio para estragar só um pedacinho da felicidade. [acho é a idéia cristã de auto-penitência tão comum no mundo ocidental falando mais alto...]
Os anos se passaram, os meus objetos de desejo mudaram, mas uma felicidade tensa e ciclotímica parece me perseguir. Mal me lembro da minha bicicleta roxa sem cestinha, não sei onde ela foi parar, mas a mesma sensação de que algo ruim vai acontecer me acompanha e, de fato, quase sempre acontece mesmo. Será que sou supersticiosa?